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Tuesday, 20 November 2012

Questão Individual 5: Mostra-me o teu Limoges, e te direi quem és



Pós-graduação em Artes Visuais - Cultura e Criação
Senac - Centro Nacional de Educação a Distância

Questão Individual 5

Texto:
Mostra-me o teu Limoges, e te direi quem és

por Thiago Cerejeira


A verdade é que já não se fazem mais Limoges como antigamente. A aristocrata sociedade do começo do século XX exibia e ostentava estes ricos serviços, compostos por louças pintadas a mão, com decoração especialmente pensada e planificada, como nas célebres peças de peixe com pinturas exclusivas e posteriormente assinadas. O exemplo desta porcelana clássica, representa bem a evolução sofrida pelo design, ao longo deste período, que irá culminar com a decadência da estética modernista. Neste caso específico, evidencia-se a constatação de que nos dias atuais, as fábricas de Limoges continuam produzindo suas louças, com formas e motivos inteiramente modernos, embora a tradicional seja também feita em novas linhas. Algumas dessas fábricas ainda aceitam encomendas para completar serviços antigos, porém pelo seu elevado preço, estas encomendas nem sempre tem o sabor e a nostalgia das peças pioneiras, já que estas, banhadas pelo tempo, adquiriram encanto e valor inestimável.




 Limoges do século XIX


Uma rápida passagem, pela historiografia do design, permite observar que as iniciativas de artistas modernos, demonstram a relação entre arte e design, presente nas propostas modernistas. O móvel fazia parte de um ideal moderno, em harmonia com a nova estética do período. Influências da Arte Déco e do Cubismo eram as referências destes artistas. A partir da década de 50 a euforia desenvolvimentista foi baseada na racionalidade e no planejamento. É neste período que o design se moderniza, não apenas para atender uma demanda da nova arquitetura, mas para acompanhar uma nova ordem social, política e cultural que se estabelece. A associação entre arquitetura, design de interiores, mobiliário e progresso contribui para o trabalho de vários profissionais, que passam a trabalhar junto a arquitetos, fornecendo móveis e utensílios com a mesma linguagem moderna dos espaços aos quais se destinam. Esta parceria pode ser exemplificada pela concepção de Walter Gropius, idealizador das principais diretrizes da escola alemã Bauhauss, que enfatizava que, o design era a unidade entre a arte e a técnica, isto é, entre a  pesquisa estético-formal e as novas condições tecnológicas da modernidade. Os projetos deveriam portanto, incorporar características específicas dos processos de fabricação seriada.

A noção de contexto se instala desde os primeiros movimentos dos anos 1960, quando ocorreu a transfiguração do banal com a Arte pop. O deslocamento do significado da obra para além de sua materialidade, para outro contexto, é o que dá nexo à obra de arte. A arte existe, então, para além dos objetos; ela se configura dentro do pensamento de quem a aprecia, de quem usufrui e mesmo a completa segundo o contexto de onde ela se originou e o contexto em que ela se encontra.  As obras de Gaetano Pesce, Alessandro Mendini e Irmãos Campana têm efetivamente uma relação com tal ideia, no aspecto do questionamento inconformista, na irreverência e na reciclagem de materiais antes considerados desprezíveis. No passado, as regras ditadas pela estética modernista vinham acompanhadas do emprego de materiais suntuosos e nem sempre de custo acessível. O anti-modernismo surgiu como um questionamento, sobretudo a este ditame, que parecia considerar estes critérios de suntuosidade como sinônimo de bom gosto e indissociáveis entre si. Os movimentos antimodernistas recentes quebraram estas barreiras, possibilitando um ecletismo e uma livre circulação, onde não há o belo ou o feio, mas simplesmente a aceitação de que tudo pode ser reaproveitado, e de onde pode surgir uma idéia surpreendente que redimensiona os parâmetros estéticos.

O design pop desses artistas, oferece experiências lúdicas, porque sugere ironia e humor, por meio das formas que surpreendem. O móvel deixa de ser pensado como produto funcional apenas. Recebe elementos que possibilitam uma interação com os usuários a partir das sensações e da subjetividade que são estimuladas por cores vibrantes, formas orgânicas e materiais sintéticos e variados. Eles recriam e redesenham os objetos criando uma forma irônica e cheia de estilo aos que as contemplam. Oferecem nova vida a objetos obsoletos e até desprezados fazendo-os renascer. Os  objetos são caracterizados por suas transformações, e assim, os artistas mostram como um móvel antigo pode se transformar, criando uma aparência mais moderna (do clássico ao contemporâneo)  a partir de suas interferências, deixando evidente, a conexão que o ser humano tem com o passado.



 Cadeiras Mendini, 1973 - Alessandro Mendini



cadeira Favela, 2003 - Irmãos campana


Contra essas condutas elitistas e a linguagem hermética do Modernismo, vai se desenvolver o Pós-Modernismo. E esse movimento é um filho direto da sociedade de consumo. Enquanto os modernistas fizeram questão de se manter à parte daquilo que era popular e de massa, imbuídos de ideais heroicos e políticos, o Pós-Modernismo sucumbe de vez ao apelo do consumo e da variedade. Desde os anos 1920, arquitetos modernos funcionalistas criavam projetos que transformavam as moradias em "máquinas para morar". Seus projetos foram amplamente utilizados, sobretudo depois da Segunda Guerra, em projetos urbanistas em que a racionalidade e a adequação à função passavam à frente do bem-estar dos que viviam nesses espaços e moradias que renegavam toda a tradição cultural do local. Por outro lado, a maneira de encarar o urbanismo e a arquitetura marcou o que se pode chamar de cidades-colagens, em que o velho e o novo participam com a mesma intensidade e criam um ambiente acolhedor para os habitantes. Longe renovar a cidade com construções todas semelhantes, com torres de concreto e vidro, o urbanismo pós-moderno deveria partir do que havia e revitalizar os sinais desse passado, garantindo a identificação da população com seu espaço urbano. Um grande marco dessa cultura híbrida foi o edifício da AT&T, com seu frontão em estilo Chippendale, sobre a torre de vidro que se apoia em colunas gregas, sinais de um ecletismo fulgurante que passará a marcar toda a cultura da Pós-Modernidade. O edifício da AT&T em Manhattan, hoje o edifício da Sony, foi concluído em 1984 e imediatamente suscitou críticas por seu frontão em estilo Chippendale. Foi visto como uma provocação em grande escala: coroar um arranha-céu em Manhattan com uma forma com ecos de acabamento de guarda-roupa histórico desafiou o preceito da estética: padrões históricos tinham sido efetivamente alijados dos preceitos da arquitetura moderna. Outros críticos viram o edifício da AT&T como o primeiro exemplo de Pós-Modernismo necessário para a dissolução do impasse do Modernismo.



Edifício da AT&T, Manhattan, 1984 - Phillip Johnson

Questão Individual 4: Cine Dada



Pós-graduação em Artes Visuais - Cultura e Criação
Senac - Centro Nacional de Educação a Distância


Questão Individual 4

Texto:
Cine Dada

por Thiago Cerejeira

Em uma de suas muitas reflexões sobre a sétima arte, Orson Welles já dizia que "O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho". Essa afirmação evidencia a característica tão peculiar que a arte cinematográfica possui de confrontar a realidade com o imaginário, promovendo muitas vezes, no espectador a sensação de estar inserido naquele contexto, ainda que se tenha consciência de seu caráter limitado, e portanto condicionado à uma exibição momentânea através de uma tela e um projetor. De fato esses aspectos atestam o poder ilusório exercido pelo cinema ao longo de todo o século XX e que definiu sua vocação para a representação naturalista, mesmo lidando, em alguns casos, com universos completamente surreais.

Embora a ênfase desse modelo dominante clássico tenha se dado à imagem e semelhança dos padrões norte-americanos, sempre existiram momentos de recusa e alternância, que questionaram esse modelo, essencialmente narrativo, baseados no melodrama e na linearidade entre causa e efeito, e que viriam a constituir um cinema de vanguarda, liberto da estética tradicional, detentor de apropriações poéticas mais preocupadas com as funções pictóricas da imagem, assim como de suas qualidades gráficas e plásticas.

No período compreendido entre 1921 e 1931, desenvolveu-se um movimento artístico independente na cinematografia, que ficou conhecido como Avant-Garde, e foi paralelo a movimentos nas artes plásticas tais como o Expressionismo, o Futurismo, o Cubismo e o Dadaísmo, tendo caráter não comercial e não representacional, porém internacional.  Neste sentido, o grupo de artistas que se dedicou à proposta de um cinema dadaísta, talvez tenha sido um dos mais influentes e marcantes para a história da cinematografia, por apresentarem um misto de delicadeza e humor corrosivo aliados à uma atitude radical e anárquica. Seu principal objetivo era a negação e ironia dos valores estéticos tradicionais, visando prioritariamente os aspectos inerentes ao ritmo e ao movimento, dentro de um contexto que primava pela percepção da luz.

A proposta extravagante,"Entr'act", de René Claire, contava com o roteiro de Francis Picabia, trilha sonora composta por Erik Satie e era inspirado em Mark Sennett. Entreato, como o próprio nome sugere, fora criado para ser projetado no intervalo das duas partes do escandaloso balé Relâche, concebido pelo próprio Picabia cujo título significa  "não há encenação hoje". Apresenta sequências desconexas, desprovidas de estrutura  lógica, em uma relação não causal, em que belas imagens são justapostas a imagens grotescas e cômicas, resultando num grande deboche de convenções  e valores estéticos.  O filme mostra desde ângulos inusitados de uma bailarina barbuda e ritmos frenéticos de um funeral até balões infláveis soltos no ar, e imagens de Man Ray e Marcel Duchamp jogando xadrez, com panorâmicas tão rápidas que se reduziam a manchas disformes na tela. Planos agressivos e propositalmente desprazerosos caracterizam esta comédia de perseguição de um artista que, no final, faz desaparecer todas as personagens, inclusive ele próprio.  Seu alvo era mesmo o de provocar o público e escandalizar a burguesia francesa, assim como escandalizou posteriormente as cidades de Londres e Nova Iorque.











Pintor e Fotógrafo, Man Ray fez seu primeiro filme "Le Retour à La Raison", em um só dia. O título se refere a um retorno a razão mas, paradoxalmente,  o filme revela-se inteiramente sem razão. Utilizaram-se fotogramas de película virgem, cobertos com  sal,  pimenta, alfinetes e botões, que depois de revelados, projetavam efeitos metálicos na tela, apresentando registro da sombra destes materiais. Os trechos também foram montados em uma sequência desconexa, com outras imagens obtidas em filmagem tradicional. O corpo  nu de uma mulher foi um dos únicos elementos concretos do filme, que continha cenas comuns em um contexto incomum. Esta foi uma obra dadaísta, tanto pelos elementos utilizados quanto pelos seus  resultados, uma vez que causou uma reação violenta na platéia sendo interrompida a projeção após três minutos de sua exibição.

 



Como podemos observar, tanto nas obras de Claire como de Man Ray, as imagens resultaram da livre  experimentação de meios artísticos que caracterizou todo o dadaísmo, neste caso voltada a idéia de se fazerem filmes sem as convenções cinematográficas, tendo como base porém os padrões naturalistas, ainda que em uma iniciativa de caráter experimental. Os filmes de Avant-Garde foram algumas vezes denominados de "cinema absoluto" ou de "cinema puro" devido sua ênfase nos valores rítmicos e estéticos.  Temos aí, portanto,  uma versão iconoclasta, à medida que esses filmes,  rompem drasticamente com comportamentos e  idéias estabelecidos, gerando assim uma atmosfera de tensão,  provando que os paradoxos visuais  dadaístas  também podem nos arrebatar com sua estranha poesia, justificando assim a afirmação do criterioso cineasta Federico Fellini, que cita:

"Para o cinema tudo se torna uma imensa  natureza-morta. Até os sentimentos dos outros  são qualquer coisa de  que se pode dispor"
 
Desse modo, essas formas experimentais que exploram um sentido de tensão, leva à constatação de que o cinema, apesar de seu intrínseco aspecto emocional, é sobretudo, a técnica de projetar fotogramas (quadros) de forma rápida e sucessiva para criar a impressão de movimento, bem como a arte de se produzir obras estéticas, narrativas ou não, com esta técnica. Compreende, portanto, uma técnica, uma forma de comunicação, uma indústria e uma arte.

Iconografia:

Entr'acte, 1924 - René Clair - Imagens com frames do filme.

Le retour a la raison, 1923 - Man Ray - Imagens com frames do filme.


Referências:

CEREJEIRA, T. L. T. Cine Dada. 2012.
 
RICHTER, Hans. Art and Cinema. 1947.

VIEIRA, João Luiz. Cinema. 2007.

Saturday, 13 October 2012

Questão Individual 3: Desconstruindo e Subvertendo: Novas Possibilidades no Design Contemporâneo


Pós-graduação em Artes Visuais - Cultura e Criação
Senac - Centro Nacional de Educação a Distância


Questão Individual 3



Texto:

Desconstruindo e Subvertendo: Novas possibilidades no Design Contemporâneo

por Thiago Cerejeira

A década de 1960 é de fato marcante para a história do design, pois foi neste período, que aconteceram suas mudanças mais revolucionárias. Os designers romperam com os modelos vigentes e apostaram em alternativas inovadoras para conceber e reinterpretar modelos já existentes. Havia uma busca pela desordem e desconstrução de valores e paradigmas, que renovou formatos e atribuiu novas experimentações de linguagens visuais e conceituais, motivadas também pelos avanços tecnológicos e movimentos artísticos do período, como a Pop Art, que ampliaram as possibilidades de criação gráfica, tornando os processos e os produtos cada vez mais dinâmicos e modernos.

Um precursor da revolução pop no mobiliário cool da época, o dinamarquês Verner Panton, é sinônimo de vanguarda e foi expert, em criar um mobiliário lúdico e novo, em um período que o mundo atravessava a era pré-tecnológica.  O designer utilizou, como matéria prima para seu trabalho, materiais como o plástico, o poliuretano e a espuma. Queria quebrar a frieza e rigidez do ferro e tornar o mobiliário mais engraçado. Para ele, era inconcebível, sentar em um sofá bege e quadrado, por exemplo.  Algumas de suas peças, como a conhecida Cadeira Panton, desafiaram a lei da gravidade e ainda hoje causam admiração e espanto. A Cadeira Panton, foi a primeira cadeira produzida em plástico, sendo ela uma peça inteira, contínua. Unidade em forma e material.  Verner Panton rompeu com a tradição de linhas simples, puras e elegantes em móveis de madeira, e experimentou com materiais coloridos e novos. Ele era um artesão que usou o plástico e o metal para criar objetos com um olhar mais internacional. É o exemplo perfeito de se estar no local exato, na época exata.
Cadeira Panton, 1960 - Verner Panton


A liberdade da cadeira Panton representava justamente o que os anos 60 pregavam: novos processos, de ordem econômica e cultural, com objetos  voltados para  o consumo  rápido, produção em larga escala e pouca durabilidade,  que por sua vez,  alteraram  profundamente as formas de produções artísticas e gráficas, servindo de  plano contextual para novas interpretações de outros designers, a exemplo dos italianos  Gaetano Pesce e Alessandro Mendini.

Pesce lançou, em 1969, a Coleção "UP Series", composta por 7 cadeiras para diferentes usos, crianças,  adultos e casais. As poltronas possuíam design orgânico, com formatos lúdicos e coloridos, apelo simples e confortável. Revolucionou, não só no material utilizado, espuma de poliuretano, mas também na embalagem dos produtos.
As peças eram  comprimidas à vácuo e envolvidas em envelopes de PVC. Quando a embalagem  era  aberta, a cadeira se expandia para o tamanho natural. Essa concepção inovadora de Pesce, com dinamismo e flexibilidade, refletia a tendência pop, que invadia a arte e o design, contrariando os padrões do período.  Aqui fica evidente sua tentativa de desconstrução, à medida que suas obras retratam a intenção do artista em reformular em suas criações as formas básicas e convencionadas de alguns modelos vigentes na época.

Poltronas "Up series", 1969 - Gaetano Pesce


Mendini, com sua experiência de "Re-design", promoveu uma apropriação de obras de outros artistas, reformulando-as a partir da inserção de novos materiais, cores e formas, em contraposição à simetria e estética das originais. Reformulou as cadeiras Thonet e Wassily, criando uma espécie de caricatura das mesmas. A Thonet,ganhou, em sua estrutura,novos elementos, metálicos, coloridos e assimétricos. Já na Wassily, a obra foi reclassificada deformando as linhas retas das faixas de couro liso e substituindo-as por manchas totalmente irregulares, desprezando assim, a sua simetria e rigidez estrutural.  É aí, onde reside, portanto, seu processo de desconstrução. Ele subverte o conceito original, estimulando novas possibilidades de criação, e, ironicamente, ainda consegue a façanha de transformar estas cadeiras em verdadeiras obras de arte.


 
Re-design das cadeiras Thonet e Wassili, 1973-79 - Alessandro Mendini


Outro exemplo, que pode ser trazido a esse contexto, é o dos irmãos brasileiros,  Fernando e Humberto Campana, notavelmente reconhecidos no cenário do design internacional, e que a partir da década de 80 passaram a produzir peças de mobiliário, diferenciadas, experimentais e com forte apelo conceitual, que  agradaram à críticos e estudiosos de vários países. Diversas de suas criações inovaram ao romper com temas e materiais clássicos do design, apostando em peças,  com simplicidade e, ao mesmo tempo extrema sofisticação, feitas com materiais comuns, encontrados em todos os lugares. Que assim o digam suas famosas cadeiras: as" Des-confortáveis" feitas em ferro; as cadeiras vermelha e azul Edra, com  ferro cromado e fios trançados de algodão tingido; ou ainda suas poltronas e outros itens de mobiliário de formas inusitadas.


Cadeiras Positivo/Negativo da série Des-confortáveis, 1989 - Irmãos  Campana




Mesa Inflável, 1995 - Irmãos Campana
Cadeira Cone,  1997 - Irmãos Campana
Cadeira Azul Edra, 1998 - Irmãos Campana
Cadeira Vermelha Edra, 1998 - Irmãos Campana
Poltrona Bola, 2009 - Irmãos Campana
Poltrona Jacaré, 2009 - Irmãos Campana
Sofá Cipria, 2010 - Irmãos Campana


Um aspecto curioso do design contemporâneo, é a sua versatilidade, que extrapola limites e convenções. Interessante ressaltar as incursões de Gaetano Pesce e dos Irmãos  Campana, mais recentemente,  na moda, com criações para a marca Melissa,  de sapatilhas com formato incomum, e de design inovador e alternativo, demonstrando bem esse diálogo com a interatividade contemporânea e, utilizando para tal, a desconstrução e subversão de formas e valores, em uma busca pelo reposicionamento estético, que resultem em novas linguagens visuais.


Sapatilha com círculos conectados,  para Melissa, Anos 2000 - Gaetano Pesce


Sapatilha vazada, para Melissa, Anos 2000 - Irmãos Campana



Referências:

CEREJEIRA, T. L. T. Desconstruindo e Subvertendo: Novas possibilidades no Design Contemporâneo. 2012.
Arquivo em PDF disponível para download em:
http://www.4shared.com/office/ow7DykVk/qti_3_Desconstruindo_e_Subvert.html

Monday, 17 September 2012

Questão Individual 2 - Moda: Reflexo de seu Tempo

Pós-graduação em Artes Visuais - Cultura e Criação

Senac - Centro Nacional de Educação a Distância

Questão Individual 2

Texto:

Moda: Reflexo de seu tempo

por Thiago Cerejeira

A Moda enquanto fenômeno social é uma manifestação que surge no final da idade média, ocasionada pelo desenvolvimento das cidades e a organização da vida nas cortes.

A aproximação das pessoas na área urbana levou ao desejo de imitar, e enriquecidos pelo comércio, os burgueses passaram a copiar as roupas dos nobres, criando assim a dinâmica de um sistema com caráter estratificador, que promoveu a diferenciação dos trajes, tanto no conceito de gênero, entre homens e mulheres, quanto no aspecto social. As convenções acerca do que usar seguiam os padrões ditados pela nobreza. A primeira noção da figura de estilista ou criador, data do final do século 18, e é atribuída a Rose Bertin (1747 - 1813), modista responsável pelas toilletes da rainha Maria Antonieta, da França.

No século 19, surgiram necessidades mais complexas de distinção das vestimentas, relacionadas à afirmação pessoal do indivíduo como membro de um grupo, assim como de sua capacidade de expressar idéias e sentimentos. Essas mudanças se caracterizaram principalmente nos artigos utilizados para a confecção das roupas. Antes não havia distinção entre os tecidos usados por homens e mulheres, e é a partir de então que o vestuário desses dois grupos se afasta cada vez mais, restrito para eles e abundante para elas.

A Revolução Industrial instala uma nova fase na moda, de aceleração mudanças e novos desafios. A figura do estilista ou criador é reconhecida profissionalmente com o advento da Alta-Costura, no início do século 20, estabelecendo novos padrões de consumo e uma ruptura com a indumentária de décadas anteriores. Porém só a partir dos anos 60 se inicia o que se define como uma segunda etapa do vestuário contemporâneo, com novos valores entrando em cena, e instaurando uma fase mais sofisticada de leitura de moda. Para o francês Gilles Lipovetsky, o grande período da moda foi de 1850 a 1970, quando ocorreram as grandes revoluções de estilo que marcaram a aparência moderna. Segundo Lipovetsky, a roupa foi emblemática de posição social por séculos, mas na contemporaneidade, deve assumir um caráter essencialmente prático.

A moda está inserida em um contexto, que por vezes, se inspira e promove releituras do passado. Neste sentido, é importante destacar as contribuições de artistas emblemáticos, que apresentam aspectos de continuidade com o passado, afinidade com o presente e projeção de futuro.

Giacommo Balla (1871 - 1958) foi um dos pintores a assinar o Manifesto Futurista de 1910 que cultuava um movimento, através da idealização de um futuro urbano e moderno, feito de sensações intensas e mudanças contínuas. Ao criar o "figurino para um ballet futurista", em 1930, Balla procurou incorporar na própria roupa, o que seriam os efeitos visuais da dança sob a iluminação de palco reforçando as sensações de dinamismo e variação no corpo dançante. Sua projeção para o futuro aparece na liberdade de expressão em criar figurinos informais, que rompem com o padrão clássico, adaptáveis às diversas situações e que poderiam ser usados por ambos os gêneros. A ligação com o passado é representada pela inspiração na roupa de corte reto, antes associada somente ao vestuário masculino, mas reinventada e inserida, no guarda-roupa feminino, pela estilista Coco Chanel (1883 - 1971), na década anterior. Chanel foi a estilista responsável por trazer o terno masculino para o universo feminino, e hoje, o terninho de alfaiate usado pelas mulheres é o marco da moda do século 20, pois a peça transmite para as mulheres a mesma sensualidade e poder que transmite aos homens, e é isso que o torna um clássico da moda.


Figurino para um ballet futurista, 1930 - Giacommo Balla




Tailleur - O terno masculino adaptado ao universo feminino,,Década de 20 - Coco Chanel


Outra contribuição atribuída à Mademoiselle Chanel é a de libertar o corpo feminino do aprisionamento dos espartilhos, peça muito utilizada na indumentária dos séculos anteriores. Essa quebra e libertação do corpo da mulher também foi incentivada, nesta mesma época, por Madeleine Vionnet (1875 - 1976), outra artista inovadora da Alta-costura, que, diferente dos cortes retos de Coco Chanel, explorava tecidos leves, que se adaptavam ao corpo, com vestidos em corte enviesado e drapeados, referência que buscou no passado, inspirada na arte grega, sinônimo de leveza, harmonia e elegância. A afinidade com o presente foi uma releitura que conferiu desobrigação do corpo feminino, do uso dos corseletes, trazendo mais conforto e construindo uma nova personalidade para a mulher até os dias de hoje.


A mulher e o espartilho, imagem do início do século 20 "Belle Époque"


Baas Relief, 1931 - Madeleine Vionnet


No Brasil, na década de 50, o desenhista Alceu Penna (1915 - 1980), conseguiu com seu desenho agir sobre o modo de ser do brasileiro, determinar maneiras de comportamento, de sentir, escolher e vestir, construindo assim a primeira noção de uma moda tipicamente nacional. Mulheres de biquíni, lindas e maliciosas, foram temas constantes em sua coluna "As Garotas do Alceu", da revista O cruzeiro, onde ele representava a mulher brasileira e lançava moda, referência para estilistas e modistas. Sua ilustração revoluciona e recorre ao passado, quando mostra o biquíni, criado a partir do maiô, uma peça única já aceita e absorvida pela sociedade. A divulgação do biquíni, em suas publicações, simbolizou o primeiro passo para a liberdade e liberação do corpo feminino, tornando a peça popular e caracterizando-a como uma moda integrada à sociedade moderna e associada ao ideal da mulher do futuro, livre, bonita e sedutora.


Ilustração de moda com maiô, Década de 50 - Alceu Penna


Ilustração de moda com biquini, década de 1950 - Alceu Penna

Uma importante ressalva, se faz necessária ao estilista francês Christian Lacroix, hoje tido como uma grande referência da Alta-costura, e que insere o conceito contemporâneo de sustentabilidade na moda, abordando questões relativas à reciclagem e reaproveitamento de materiais, estabelecendo a relação "Do lixo ao luxo", evidente em sua criação de 1996, "Casaco de Organza Rasgada", confeccionado a partir de retalhos. Essa inserção de Lacroix alerta para os rumos da moda no mundo contemporâneo e incita à postura crítica que se deve assumir diante da responsabilidade social sobre uma conscientização ecológica, para a projeção do futuro, assunto-chave na pauta de debates do novo milênio. A análise desse conceito nos leva à reflexão do pensamento deixado pelo sociólogo francês Jean Baudrillard, que ao definir o sistema da moda, coloca:

"A moda e, de modo mais amplo o consumo, que é inseparável da moda, mascara uma inércia social profunda"


Casaco de organza rasgada, 1996 - Christian Lacroix


Ilustração de moda, Década de 90 - Christian Lacroix



Referências:

BARTHES, Roland. O sistema da moda. São Paulo: Ed. Nacional / Edusp, 1979.

CALDAS, Dario. Universo da Moda: Curso Online. São Paulo: Anhembi Morumbi, 1999.

CEREJEIRA, T. L. T. Moda: Reflexo de seu Tempo. 2012.

Arquivo em PDF disponível para download em:

http://www.4shared.com/office/fwvdVXya/qti_2_-_moda_reflexo_de_seu_te.html

CEREJEIRA, T. L. T. "E quanto ao surgimento da moda". Disponível em: www.modahistoria.blogspot.com.

HOLLANDER, Anne. O Sexo e as Roupas: a Evolução do Traje Moderno. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: a Moda e Seu Destino nas Sociedades Modernas. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

PALOMINO, Érika. Amoda. São Paulo: Publifolha, 2002.