Senac - Centro Nacional de Educação a Distância
Fórum 3 - Bloco Fragmentação
Todas as formas de descontinuidade espaço-temporal trabalhadas pelos artistas vistos no Bloco Fragmentação nos ajudam a pensar sobre os intensos fluxos de imagens que constituem o mundo contemporâneo. A televisão, por exemplo, é um importante veículo de imagens, de presença massiva na vida cotidiana. Sua programação reúne diversas estruturas de articulação espaço-temporal, desde as formas narrativas mais tradicionais até extremos de fragmentação. Nesse fórum, debata sobre essas estruturas: pense exemplos de linearidade e descontinuidade na televisão e discuta com seus colegas os seus diferentes sentidos.
Resposta:
De acordo com as obras analisadas no bloco, podemos evidenciar que a fragmentação é um conceito que pode ser encontrado facilmente na arte contemporânea, tendo surgido da experimentação moderna e sua necessidade de ampliar os recursos criativos e a cultura. Isso fica evidente nos novos padrões, estabelecidos pelo Cubismo e Futurismo que, através de suas obras inovadoras, nos ajudaram a pensar sobre os intensos fluxos de imagens, que constituíam o mundo contemporâneo.
O Cinema e, posteriormente a televisão, se caracterizaram no decorrer do século XX, como os meios de comunicação de maior expressividade. A televisão revolucionou o mundo, influenciou comportamentos, marcou décadas e hoje é o meio de comunicação com maior penetração e importância no mundo, mesmo depois da popularização da Internet.
A teledramaturgia é um bom exemplo do conceito de linearidade, pois geralmente apresenta uma narrativa tradicional, aliada à uma dramaticidade socialmente responsável. No Brasil, as telenovelas e minisséries exercem muita influência no cotidiano da população, porque se utilizam de discursos de forte conotação social e que confrontam o espectador com a vida real. Embora a tendência dominante seja a das novelas estruturadas neste formato convencional, já existem registros, de experiências de folhetins que romperam com essa proposta linear, em termos dramatúrgicos. É o caso por exemplo do autor Carlos Lombardi, onde a problematização dos signos, da encenação e da narrativa da telenovela é feita de forma provocativa, porque visa certa transparência de propósitos, como se suas tramas fossem um comentário sobre a natureza da teledramaturgia, sobre sua moral e sobre seus mecanismos de identificação com o espectador. Uma de suas obras, a telenovela
Kubanacan, estava mais próxima, das histórias em quadrinhos, dos filmes de aventura e da pornochanchada que da crônica social ou dos contos de fada típicos das novelas tradicionais.
Contudo é interessante observar, que em um contexto geral, a televisão brasileira tem apresentado, uma tendência ao emburrecimento da população, com programas que não estimulam a cultura e a produção do conhecimento, gerando uma overdose de atrações bizarras que tem um apelo massificado, sensacionalista e comercial. E esta não é uma característica somente das emissoras da TV aberta, pois alguns canais fechados já estão aderindo à essa estética da falta de renovação cultural.
Dentro da noção de descontinuidade, não poderia deixar de citar a importância do fenômeno Videoclipe. Algumas das imagens mais reveladoras e representativas sobre a cultura de massas do final do século XX e início do século XXI são trechos de videoclipes. Entre seus aspectos mais variados, o videoclipe é a síntese do contemporâneo, através de sua aproximação da vanguarda com a indústria cultural. Em seus desdobramentos estão inseridas as imagens fragmentadas,
o hibridismo, o desencaixe entre seus tantos elementos e a utilização de narrativas simples. Neste sentido a experiência da MTV - Music Television, criada com o propósito de abrigar as relações entre música e imagem, arte e publicidade, é considerada um marco para a cultura pop. Isso é visível em suas intrigantes vinhetas, que mesmo utilizando uma linguagem visual atípica da maioria das emissoras nacionais,
busca, através da experimentação de novas formas de diálogo e fragmentos de sentidos múltiplos, criar e manter, uma identidade adequada a seu público-alvo.
No âmbito de um enfoque cultural na televisão, faço referência ao programa "Re[corte] Cultural", que ficou cerca de três anos e meio no ar pela TVE e depois pela TV Brasil, e utilizava recursos de corte/montagem e de aúdio e vídeo para construir uma visão dinâmica sobre a cultura a partir da linguagem. Apresentado por Michel Melamed , o RE[CORTE] CULTURAL , mais que um talk-show ou uma revista eletrônica de cultura, era a tentativa de uma televisão artística, criativa, experimental. O processo não seguia um roteiro, as entrevistas aconteciam, e ao seu término a equipe de produção ainda estava longe de saber o que incluiria ou não na revista cultural eletrônica. Tudo o que era produzido passava por uma edição, que era a parte final do processo de construção do programa, porém diferente do método de edição tradicional, linear, como é normal ver na televisão. De acordo com Melamed "É na verdade uma desconstrução do programa. Uma edição fragmentada para levar à reflexão. Não há uma regra específica. O fim de um bate-papo pode vir antes de seu início. A fala de alguém pode ser cortada pela imagem de um filme ou pela citação de um filósofo. A intenção é experimentar e tentar fugir do discurso pronto, da idéia única".
No cinema, Jean-Luc Godard, já propunha uma liberdade artística, que utilizava essa descontinuidade, como sendo a própria vida. Em seus filmes, a narração é não linear e, em alguns casos, se torna confusa para o espectador, como em uma espécie de oposição à linearidade americana que, para Godard, poda a liberdade do processo criativo. Ele utilizava então, a narrativa como um instrumento para fazer com que o espectador entrasse no filme, fazendo-o participar ativamente dos seus acontecimentos, suas histórias e personagens, num diálogo direto. E como o mesmo define, em sua sutil genialidade "É preciso enxergar o que se olha, vendo".
Em um apelo mais contemporâneo, opto por mencionar, o filme As Horas(2002) do diretor Stephen Daldry, baseado no livro homônimo de Michael Cunningham, que tem como inspiração o romance "Mrs. Dalloway" da escritora Virginia Woolf, que por sua vez, é interpretada no filme pela atriz Nicole Kidman. O destaque vai para a narrativa intercalada, que apresenta três histórias, de três mulheres, em espaços temporais distintos. Apesar da incorrelação as três tramas carregam em si algumas coincidências, entre as situações vivenciadas pelas personagens, que envolvem relações de identidade e conflitos emocionais. Essas semelhanças adquirem, no filme, um caráter universal, estabelecendo assim, mesmo com a não-linearidade da trama, uma ligação no contexto geral.
Cabe aqui,ressaltar a essência da linguagem de Virginia Woolf, que é considerada modernista, extremamente contemporânea e revolucionária, por trazer influências que rompem com a narrativa linear, apresentando uso de técnicas de justaposição e montagem.
Ainda no cinema, outra contribuição significativa, é o filme 21 Gramas(2003), dirigido por Alejandro González Iñárritu e escrito por Guillermo Arriaga, com atuações de Sean Penn, Naomi Watts e Benicio del Toro. 21 Gramas é apresentado em uma estrutura não-linear, onde as vidas dos personagens são retratadas antes e depois de acidentes sofridos por eles. Cada um dos personagens principais, tem passado, presente e futuro, os quais são mostrados como fragmentos não-lineares que pontuam elementos da história como um todo, todos aproximando-se uns dos outros e aderindo-se enquanto a estória avança.
Uma última e importante consideração, faz-se necessária, em relação ao contexto das mídias digitais, oriundas do campo virtual, relacionadas principalmente aos mecanismos de interação nas redes sociais, onde constantemente são deixados fragmentos, que objetivam caracterizar um perfil, ainda que muitas vezes, essas informações não dialoguem entre si, constituindo desse modo uma estrutura não-linear, baseada na superficialidade.
Ilustrando as referências citadas, indico os links abaixo, para apreciação.
Cena da novela Laços de Família () de Manoel Carlos - exemplificando o conceito tradicional de teledramaturgia, que associa a dramaticidade aà vida real:
http://www.youtube.com/watch?v=nlkC1PLt4aE
cenas da novela kubanakan (2003) de Carlos Lombardi - referência à um modelo de trama que se opõe ao modelo tradicional, com uma linguagem mais desconectada:
http://www.youtube.com/watch?v=JqRhKRn248o
Videoclipe "Black or White" (1991) de Michael Jackson - uma referência que marcou a revolução tecnológica do audiovisual:
http://www.youtube.com/watch?v=gGXUBMUHXOQ
Vinhetas da MTV - exibindo o conceito de descontinuidade:
http://www.youtube.com/watch?v=Qn-urt3T57c
http://www.youtube.com/watch?v=v8Dd4MSgjyk
Trechos do programa Re[Corte] Cultural, da TVE Brasil:
http://www.youtube.com/watch?v=AbdKfPvpjsM
http://www.youtube.com/watch?v=2V0C2paGezY
Filme "A Chinesa" (1967) de Jean-Luc Godard
http://www.youtube.com/watch?v=SFaEY92jGHI
Filme "As Horas" (2002) de Stephen Daudry:
http://www.youtube.com/watch?v=cmFDGAPiKJE
http://www.youtube.com/watch?v=gtQ8hcXTxkM font-family: "arial","sans-serif";">Filme "21 Gramas" (2003) de Alejandro González Iñárritu
http://www.youtube.com/watch?v=uoL0GZF8hAw
Editorial de moda inspirado nos conceitos de fragmentação.
http://composeprodutora.wordpress.com/22-2/fragmentart/
http://www.facebook.com/media/set/?set=a.242844589154322.44528.100002863480400
Charge TV Brasileira
Thiago Cerejeira
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