Tuesday, 23 October 2012

Fórum 8 - Bloco Abstração



Pós-graduação em Artes Visuais - Cultura e Criação
Senac - Centro Nacional de Educação a Distância



Fórum 8 - Bloco Abstração


A técnica inventada por Tabard foi outro modo de extrair imagens abstratas de meios fotográficos, sendo o processo químico tratado à maneira de uma pintura informal. Em sua obra, e também na do pintor Iberê Camargo, os nexos com a realidade se estabelecem através de uma materialidade sem contornos definidos ou controláveis, que os artistas manipulam dando margem ao inesperado. Pense: o que isso lhe diz sobre a experiência do real? Talvez possamos ver nos dois casos um desejo de estabilizar formas em matérias instáveis. Ambos aludiriam, assim, à relação produtiva do indivíduo com um real sempre complexo e jamais plenamente apreensível.

Agora pense mais detidamente a respeito da obra de Yves Saint Laurent, que estabelece uma relação direta entre um vocabulário abstrato e a realidade tangível do corpo feminino. Reflita sobre a apropriação da estética neoplástica pela moda dos anos 60, vá ao fórum e debata o sentido dessa apropriação no vestido Mondrian.


O Vestido Mondrian é um marco porque representa o momento em que a moda estreita sua relação com a arte. Obviamente que alguns estilistas precursores já na primeira metade do século 20, ensaiavam esta afinidade. Ressalva aos que já foram discutidos por aqui, Poiret, Vionnet, Versace, e um destaque  especial para Coco Chanel e Elsa Schiaparelli, que dialogaram bem com artistas de seu tempo, como Picasso e Dalí.

O Vestido criado porSaint-Laurent estabelece ainda uma antecipação do que viria a ser o minimalismo na moda. De fato essa é uma estética que só se estabeleceu realmente nos anos 90, após as excessivas e contagiantes décadas de 70 e 80. YSL parecia prever que a moda experimentaria de tudo, para enfim se render à uma sintese visual de planos e linhas retas, e cores lisas. Ele buscou inspiração estratégica, no neoplasticismo incentivado por Van Doesburg e Mondrian, que  se organizava em  torno da necessidade de clareza, certeza e ordem. O movimento Tinha como propósito  central encontrar uma nova forma de expressão plástica, liberta de sugestões representativas e composta a partir de elementos mínimos. Essa abstração é racional e geométrica. A utilização das cores primárias, e do branco , preto e cinza, que eram defendidas por Mondrian como as cores elementares do universo, em blocos assimétricos, como podemos observar na tela em questão,   cria um efeito monumental,  apesar da escassez de meios, propositalmente limitados, que emprega.

Saint Laurent foi genial neste sentido. A estruturação da modelagem  da peça, a linha tubo,  obedece ao parâmetro ortogonal da pintura de Mondrian, com um corte reto, seco, longe do corpo, silhueta que  inclusive foi hit nesse período, em que os prospectos espaciais, dominavam a cena. Assim, percebo essa releitura e apropriação do neoplasticismo, como uma conveniência aos esquemas estéticos que se firmavam naquele período.  O Vestido  Mondrian de  YSL, a transposição da Op Art    de Pierre Cardin, os cortes       construídos e arqui-estruturados de Courréges,
nos quais os materiais   contemporâneos (plásticos,       papel ou metal) são   simplesmente expressão de      uma moda de sínteses. Síntese entre a pintura, a     arquitetura e o desenho.     Síntese entre linha e cor. Sua obra, muitas vezes copiada, continua a inspirar a arte, o design , a moda e a publicidade que a apropriam como design, sem necessariamente levar em conta sua fundamental e filosófica recusa à imagem.

Há uma linha de pensamento que afirma que as grandes inovações na moda foram até os anos 80, e de lá para cá apenas as releituras reinaram. Sempre algo cinquentinha, ou com uma pitada hippie, ou meio punk, se arriscando no máximo, a um revival grunge do início dos 90.

Para  a arte contemporânea eu percebo uma atmosfera bem dissonante do que se pintou no modernismo ,   em que o artista tentava preservar sua autonomia indo contra o mercado oficial. Hoje tem-se um esquema comercial, extremamente capitalista e estratégico, por trás deste novo mercado de arte,    que envolve inúmeros profissionais de comunicação.  É uma situação paradoxal para oartista criador: sem ele, a rede de comunicação não pode existir, mas ele também não pode existir sem essa rede que se encarrega de lhe dar visibilidade: dentro deste novo esquema a transparência é total e a obra de um artista deve estar presente em várias exposições durante o ano todo. Estar in ou out é uma escolha difícil que o artista deixa a cargo de seu produtor.  Há uma absorção da autonomia pela comunicação. O artista que entrou no mercado fica coagido a aceitar suas regras se quiser continuar nele. Isto é, se renovar e se  individualizar em permanência sob pena de desaparecer.  É preciso então renovar de alguma maneira essa massa, proceder a uma individualização, multiplicar as entradas. Será a corrida à mudança, à procura de novas apelações, de novos artistas, de novos movimentos.

Podemos dizer que existe um efeito "second life", pois a ideia tradicional de arte
"autonomia, valor absoluto, critérios estéticos " e a ideia de artista "exprimindo  uma ideia nova, crítica da sociedade " contribuem para mascarar esse esquema em rede e altamente comercial que se descortina por detrás da arte contemporânea. A realidade da obra de arte contemporânea se constrói fora das qualidades da obra, na imagem que ela suscita nos circuitos de comunicação.

Além das referências de moda sixties, cito como  exemplos, dois artistas da arte contemporânea brasileira, que vem despontando no mercado internacional e trazem trabalhos interessantes de releituras. Adriana Varejão com trabalhos que revisitam o barroco e Vik Muniz com suas intervenções insólitas de obras clássicas.


Da esquerda para a direita, de cima para baixo:

YSL (Mondrian Dress), Pierre Cardin;

André Courréges, Paco Rabanne, Loks maxi/mini/midi;

"Azulejaria Verde em Carne Viva", 2000 - Adriana Varejão

"A Morte de Marat", 2008 -  Vik Muniz

No comments:

Post a Comment