Pós-graduação em Artes Visuais - Cultura
e Criação
Senac - Centro Nacional de Educação a
Distância
Fórum 8 - Bloco Abstração
A técnica inventada por Tabard foi outro modo
de extrair imagens abstratas de meios fotográficos, sendo o processo químico
tratado à maneira de uma pintura informal. Em sua obra, e também na do pintor
Iberê Camargo, os nexos com a realidade se estabelecem através de uma
materialidade sem contornos definidos ou controláveis, que os artistas
manipulam dando margem ao inesperado. Pense: o que isso lhe diz sobre a
experiência do real? Talvez possamos ver nos dois casos um desejo de
estabilizar formas em matérias instáveis. Ambos aludiriam, assim, à relação
produtiva do indivíduo com um real sempre complexo e jamais plenamente
apreensível.
Agora pense mais detidamente a respeito da
obra de Yves Saint Laurent, que estabelece uma relação direta entre um
vocabulário abstrato e a realidade tangível do corpo feminino. Reflita sobre a
apropriação da estética neoplástica pela moda dos anos 60, vá ao fórum e debata
o sentido dessa apropriação no vestido Mondrian.
O Vestido Mondrian é um marco porque
representa o momento em que a moda estreita sua relação com a arte. Obviamente
que alguns estilistas precursores já na primeira metade do século 20, ensaiavam
esta afinidade. Ressalva aos que já foram discutidos por aqui, Poiret, Vionnet,
Versace, e um destaque especial para
Coco Chanel e Elsa Schiaparelli, que dialogaram bem com artistas de seu tempo,
como Picasso e Dalí.
O Vestido criado porSaint-Laurent estabelece
ainda uma antecipação do que viria a ser o minimalismo na moda. De fato essa é
uma estética que só se estabeleceu realmente nos anos 90, após as excessivas e
contagiantes décadas de 70 e 80. YSL parecia prever que a moda experimentaria
de tudo, para enfim se render à uma sintese visual de planos e linhas retas, e
cores lisas. Ele buscou inspiração estratégica, no neoplasticismo incentivado por
Van Doesburg e Mondrian, que se
organizava em torno da necessidade de
clareza, certeza e ordem. O movimento Tinha como propósito central encontrar uma nova forma de expressão
plástica, liberta de sugestões representativas e composta a partir de elementos
mínimos. Essa abstração é racional e geométrica. A utilização das cores
primárias, e do branco , preto e cinza, que eram defendidas por Mondrian como
as cores elementares do universo, em blocos assimétricos, como podemos observar
na tela em questão, cria um efeito monumental, apesar da escassez de meios, propositalmente
limitados, que emprega.
Saint Laurent foi genial neste sentido. A
estruturação da modelagem da peça, a
linha tubo, obedece ao parâmetro
ortogonal da pintura de Mondrian, com um corte reto, seco, longe do corpo,
silhueta que inclusive foi hit nesse
período, em que os prospectos espaciais, dominavam a cena. Assim, percebo essa
releitura e apropriação do neoplasticismo, como uma conveniência aos esquemas
estéticos que se firmavam naquele período.
O Vestido Mondrian de YSL, a transposição da Op Art de Pierre Cardin, os cortes construídos e arqui-estruturados de
Courréges,
nos quais os materiais contemporâneos (plásticos, papel ou metal) são simplesmente expressão de uma moda de sínteses. Síntese entre a
pintura, a arquitetura e o
desenho. Síntese entre linha e cor.
Sua obra, muitas vezes copiada, continua a inspirar a arte, o design , a moda e
a publicidade que a apropriam como design, sem necessariamente levar em conta
sua fundamental e filosófica recusa à imagem.
Há uma linha de pensamento que afirma que as
grandes inovações na moda foram até os anos 80, e de lá para cá apenas as
releituras reinaram. Sempre algo cinquentinha, ou com uma pitada hippie, ou
meio punk, se arriscando no máximo, a um revival grunge do início dos 90.
Para a
arte contemporânea eu percebo uma atmosfera bem dissonante do que se pintou no
modernismo , em que o artista tentava
preservar sua autonomia indo contra o mercado oficial. Hoje tem-se um esquema
comercial, extremamente capitalista e estratégico, por trás deste novo mercado
de arte, que envolve inúmeros
profissionais de comunicação. É uma situação
paradoxal para oartista criador: sem ele, a rede de comunicação não pode
existir, mas ele também não pode existir sem essa rede que se encarrega de lhe
dar visibilidade: dentro deste novo esquema a transparência é total e a obra de
um artista deve estar presente em várias exposições durante o ano todo. Estar
in ou out é uma escolha difícil que o artista deixa a cargo de seu
produtor. Há uma absorção da autonomia
pela comunicação. O artista que entrou no mercado fica coagido a aceitar suas
regras se quiser continuar nele. Isto é, se renovar e se individualizar em permanência sob pena de
desaparecer. É preciso então renovar de
alguma maneira essa massa, proceder a uma individualização, multiplicar as
entradas. Será a corrida à mudança, à procura de novas apelações, de novos
artistas, de novos movimentos.
Podemos dizer que existe um efeito
"second life", pois a ideia tradicional de arte
"autonomia, valor absoluto, critérios
estéticos " e a ideia de artista "exprimindo uma ideia nova, crítica da sociedade "
contribuem para mascarar esse esquema em rede e altamente comercial que se
descortina por detrás da arte contemporânea. A realidade da obra de arte
contemporânea se constrói fora das qualidades da obra, na imagem que ela
suscita nos circuitos de comunicação.
Além das referências de moda sixties, cito
como exemplos, dois artistas da arte
contemporânea brasileira, que vem despontando no mercado internacional e trazem
trabalhos interessantes de releituras. Adriana Varejão com trabalhos que
revisitam o barroco e Vik Muniz com suas intervenções insólitas de obras
clássicas.
Da esquerda para a
direita, de cima para baixo:
YSL (Mondrian Dress),
Pierre Cardin;
André Courréges, Paco
Rabanne, Loks maxi/mini/midi;
"Azulejaria
Verde em Carne Viva", 2000 - Adriana Varejão
"A Morte de
Marat", 2008 - Vik Muniz

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