Tuesday, 20 November 2012

Atividade Prática 10 - Bloco Repetição: "Flor"



Pós-graduação em Artes Visuais - Cultura e Criação
Senac - Centro Nacional de Educação a Distância

Atividade Prática 10 - Bloco Repetição


"Flor"


A proposta de criação para esta atividade tomou como base o seguinte princípio:

“a) A repetição é o que permite a percepção de ritmos espaciais e temporais. Crie uma imagem em que diferentes ritmos se combinem e cujo resultado comunique equilíbrio.”

O ato de repetir, tornou-se uma constante da modernidade, pois com o advento da Revolução Industrial, essa fórmula foi adotada por várias esferas sociais, incluindo a arte.  Passou a ser frequentemente associada à produção de objetos iguais, aos gestos repetidos, de acordo com o ritmo das  máquinas, a padronização do comportamento e a massificação dos indivíduos, determinando assim sua inevitável presença, no contexto urbano das grandes cidades.

Embora inicialmente tenha se apresentado como um aspecto negativo, mesmo havendo uma crença nos benefícios da indústria para a vida cotidiana, a ideia de repetição assumiu valores positivos em certos casos, e  nem sempre foi associada aos processos industriais. É o que observamos por exemplo, na fotografia de Rodtchenko, que mostra a repetição,  como atividade do dia a dia, e ao mesmo tempo como padrão geométrico abstrato, fato que leva à reflexão de uma das principais filosofias do Construtivismo, onde  as formas deviam negar as posições estáticas e a própria noção de estabilidade.  Assim a forma era concebida como uma construção espacial, combinação de elementos visuais em novas imagens da realidade.


A escada, 1930 - Alexandre Rodtchenko


A idéia de repetição pode ser associada à ideia de ritmo, pois a  percepção de um ritmo é a percepção de algo que se repete regularmente,  no espaço ou no tempo, seja um som, um movimento, ou qualquer outra coisa. O ritmo é uma experiência vital, ligada aos batimentos cardíacos, à respiração, ao falar e ao caminhar, por isso a sua sensação transmite harmonia e beleza. Neste sentido, outra obra que se apresentou interessante para a concepção deste projeto foi o Vestido Dior, que apresenta semelhanças com a fotografia de Rodtchenko.  Ambas mostram mulheres subindo escadas, e fazem da estrutura em degraus uma motivação plástica, um princípio determinante do trabalho. No vestido, isso é visível tanto no próprio plissado do tecido, quanto na modelagem da saia, que cai em uma sequência de camadas, da cintura ao chão.



 Linha Vertical, 1950 - Christian Dior


Seguindo o critério que Dior usou em seu vestido, que funciona como uma espécie de música para os olhos, onde  uma combinação de ritmos visuais, se sobrepõe e se misturam, como que exaltando a   graciosidade das curvas femininas, em um  exemplo perfeito daquilo que ele mesmo chamou de "mulher-flor", formas harmoniosas que desabrocham em movimentos e camadas, e linhas que se propagam no espaço.

A partir dessa inspiração, adotou-se a proposta da elaboração de um projeto, fundamentado na conceituação definida por Donald Judd, de objeto específico, que não é necessariamente pintura ou escultura, mas que está em  diálogo com as duas linguagens. Pensou-se então na projeção de um objeto tridimensional, que seria organizado a partir da repetição de um mesmo elemento, porém com diferenças em sua estruturação.

O material pensado para a criação, foi essencialmente o papel virgem, peso 40, branco, modelado em forma de plissado, como nos efeitos obtidos, tanto na fotografia como no vestido, e dispostos em uma ordem estruturalmente crescente, em uma alusão ao particular formato de uma "flor".  Para tanto, a imagem de referência escolhida para a composição deste objeto, foi a de um cravo branco, pela sua peculiar característica do formato das pétalas, que tem um efeito próximo ao dos resultados ópticos das obras de Rodtchenko e Dior.


 
Imagem de referência: Cravo branco


As etapas de montagem compreenderam um processo muito simples, que se iniciou com a modelagem e dobradura das folhas de papel em formato plissado, onde foram posteriormente organizadas em um suporte. As folhas plissadas ou “pétalas”, foram propositalmente elaboradas em tamanhos diferentes, para que pudessem apresentar a sensação de, ora expansão, ora afunilamento, como em um desabrochar.



Materiais utilizados no processo de construção


A "Flor" obtida como resultado deste processo prático, carrega em si um
apelo conceitual, que poderia ser associado à ideia de Joseph Kosuth, quando disse que " as verdadeiras obras de arte são as idéias". Com sua frase,  Kosuth nega que a arte seja uma produção de objetos, e afirma que ela é uma produção de pensamentos sobre os objetos, pensamentos sobre os seus significados, e finalmente sobre o próprio modo como os pensamentos são estabelecidos pela linguagem.

Portanto fazer arte seria investigar a relação entre as coisas e as suas representações visuais e verbais, que são formas de linguagem, com as quais pensamos e conceituamos as coisas.  Como a arte é a própria produção  dessa ideia, o observador torna-se também artista, pois produz arte. Uma arte como ideia não pode ser comprada, pode apenas ser pensada por qualquer pessoa, logo essa arte da reflexão seria também uma crítica aos mecanismos do mercado, que tendem a favorecer o objeto de arte único, valorizado como mercadoria para poucos.
O resultado final do processo, que pretende atender à solicitação desta atividade, pode ser conferido na imagem a seguir.




Flor, 2012 – Thiago Cerejeira

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